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Crônica: Júnior azarado

Júnior azarado

José Francisco da Silva Jr.

Quando acordamos sempre agradecemos por mais um dia de vida e espera que o dia seja repleto de acontecimentos felizes. Porém não foi o que aconteceu com Júnior, em uma segunda, do ano de 2010.

Dois mil e dez, um ano de muitas lembranças para Júnior, mas um dia inesquecível foi o da volta às aulas do respectivo ano. Se vocês ainda não perceberam Júnior sou eu, engraçado escrever um acontecimento que aconteceu com você e escrevendo como se fosse outra pessoa, achei engraçado. Voltando a minha lembrança, estava ansioso para reencontrar meus amigos e espero a manhã passar assistindo TV, nessa época ainda passava desenhos de qualidade. A tarde chega, almoço, tomo banho, faço a higiene bucal e surge aquela dúvida: com qual roupa irei no primeiro dia de aula?

Primeira roupa do primeiro dia aula, com certeza vocês sabem do que estou falando. E é lógico que vocês também sabem que sempre escolhemos a melhor calça, a melhor camisa, o melhor de tudo, porém o meu melhor tratava-se de uma camisa estampada com o desenho do BEN 10. Minha irmã mais velha que mim deu e fez pressão para usar-la, agora mim diga, um pré-adolescente começando o 9° ano do ensino fundamental ir para o primeiro dia de aula com uma camisa estampada com o desenho do BEN 10, é o mico do dia que seria do ano todo. Não aguento a pressão e pra minha irmã não pensar que não gostei do seu presente, decido ir com ela mesmo. Primeiro sinal que esse dia não seria um dos melhores.

Já totalmente pronto, olho pro céu e vejo as nuvens carregadas e sinto a temperatura cair, deduzo que irá chover. Saio a procura de uma sobrinha, mas a única que resta é uma totalmente feminina, repleta de florzinhas. Esse seria o mico dois do ano e nessa época ainda ligava com o que as pessoas iriam pensar de mim, enfim decido não levar e contar com a sorte. Segundo sinal que esse dia não seria um dos melhores.

Com um pequeno caderno de 48 folhas na mão direciono-me à caminho da escola, detalhe, com as mãos e os braços envolta da estampa do desenho do BEN 10. Sigo em frente com o pensamento: "Tomara que ninguém note que estou com essa camisa estampada com esse desenho ridículo". Já longe de casa, os primeiros pingos de chuva começam a cair, revelando o terceiro sinal que esse dia não seria um dos melhores.
A quantidade de pigos de chuva a cair aumenta e saio correndo a procura de algum lugar para abrigar-me, porém o que encontro não é o suficiente e fico completamente molhado. Esperando a chuva parar, penso que não poderia ficar pior e mim engano, meus cabelos modelados com creme de pentear começa a dissolver o produto com a água da chuva e rolar pela minha face até que o produto misturado com a água da chuva cai em meus dois olhos. Quarto sinal que esse não seria um dos melhores dias.

Meus olhos começam a arder e ficam completamente vermelhos, em seguida a chuva para de cair e molhado, com os olhos vermelhos decido continuar a jornada de azar até a escola. Próximo a um bueiro, sinto febre, quinto sinal que esse não seria um dia dos melhores. Mais a frente tiro o pequeno caderno de 48 folhas do bolso direito da calça e percebo que está molhado, que não servirá para mais nada. Furioso com minha maré de azar arremesso o caderno no bueiro e fico a lhe fitar até desaparecer na correnteza da chuva que por ali passava.

Chego na escola atrasado, com os olhos vermelhos, encharcado, sem caderno e escondendo aquela camisa ridícula com meus braços. Faço de tudo para ninguém me notar, mas parece que quando você mais quer desaparecer você é notado. Meus amigos se aproximam e questionam sobre o meu estado deplorável, tento disfarçar dizendo que levei um pouquinho de chuva e que estou resfriado, por isso dos olhos vermelhos. Sexto sinal que esse dia não seria um dos melhores. 

Em seguida, após apresentação dos novos professores, a diretora anuncia os nomes dos alunos e suas respectivas salas. Porém o destino resolveu brincar com minha vida e fez meu nome não constar na lista de matrículados do 9° ano do ensino fundamental. Esse foi meu limite, entrei em estado de fúria com o destino e em todo minuto questionava o porque dessa maré de azar está acontecendo comigo.

Depois de resolver o problema anterior, destino-me a minha respectiva sala. A professora de português chega, após as apresentações, a mesma resolve fazer uma dinâmica. A dinâmica era um quiz de perguntas e respostas, quem acertassem as perguntas iria continuando no jogo e se errasse dava a vez a um novo competidor. Quem chegasse até o fim do quiz sentado na carteira de participante da rodada levaria o prêmio, uma caixa de chocolate.

Após uns três colegas irem e errarem, decido ir e por incrível que pareça acabo vencendo o quiz. Fiquei em êxtase, e cheguei a conclusão que foi o mais justo, já que tive um dia amargo de azar. Com a  caixa de chocolate poderia adoçar um pouco esse dia inesquecível. Esse ainda não é o último sinal que fez desse dia uns dos mais inesquecíveis e piores da minha vida.
Último sinal. Chegando em casa, vou para o banho, mas já era tarde demais, a virose já tinha mim pegado. Gripado terminei o dia afogando meu azar no chocolate. Agora de uma coisa sei, esse dia não foi normal, esse dia foi feito pra mim, mas porque justo eu? És a questão que não tem a resposta. Esse foi o dia do Júnior azarado.

Essa história é verdadeira.

(Foto: Júnior Araújo na Praia do Forte em Natal/RN/ Acervo do Autor)

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